Resenha sobre o romance "Judas", de Amós Oz, com tradução do hebraico por Paulo Geiger.

 

“O judaísmo e o cristianismo, e também o Islã, destilam todos eles o néctar da graça, da justiça e da compaixão, mas só enquanto não têm nas mãos algemas, grades, poder, porões de tortura e cadafalsos. Todas essas crenças, e mais aquelas que nasceram nas últimas gerações e continuam até hoje a enfeitiçar muitos corações, todas vieram para nos salvar e rapidamente acabaram derramando nosso sangue......... Se ao menos um dia desaparecessem do mundo todas as religiões e todas as revoluções, eu lhe digo – todas, até a última delas, sem exceção – vai haver muito menos guerras no mundo”. Guershom Wald, personagem de Amós Oz, no romance “Judas” (tradução do hebraico de Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2014 - mesmo ano do lançamento do original em Israel).

Um dos méritos que admiro no escritor israelense Amós Oz é o de dar continuidade a um tipo de Literatura, hoje desprezada por muitos, com uma narrativa clara e significativa das preocupações humanísticas, de forma a abrir ao leitor possibilidades de reflexão, e não apenas do lazer inconsequente, percepção estética pela estética ou a contrária imposição de uma visão acabada como foi o realismo social soviético ou é a apologia à competitividade amoral do mundo capitalista. A Literatura, afinal, sempre teve um significado pleno de formação e integração social. Muitos modernismos interferiram e continuam interferindo em seu sentido humanístico. E, no entanto, a nossa sociedade imperfeita tem muito ainda a interagir literariamente. 

Parece haver uma continuidade marcante às obras de Thomas Mann na estruturação que remete ao leitor o “aprendizado” de um personagem numa situação ficcional em paralelo à experiência histórica e cultural da realidade (Como é nítido o paralelismo no “Doutor Fausto” entre a história de um compositor doente, de uma arte tornada fria, calculista - o dodecafonismo shömberguiano estrito -, com o nazismo, ou em “A montanha mágica” a “crise” de personagens provenientes de diferentes países da Europa num sanatório suíço para tuberculosos no período que antecede a Primeira Guerra Mundial). E, observando que o pós-modernismo possibilita e até propicia muito mais a interpenetração dos gêneros (como ficção e ensaio), é de se concluir que há muita atualidade nessa forma de construção romanesca. Um típico “romance de formação” (“bildungsroman”) alemão, como “A montanha mágica”, é exemplar neste tipo de Literatura, onde o jovem Hans Cartop convive com os diversos tipos da época, acompanhando, inclusive, as discussões entre o italiano Settembrini, que racionaliza o progresso de nossa sociedade e o jesuíta Naphta, descendente de judeus, com seu misticismo que tange o sobrenatural.  O jovem “em formação” de “Judas”, de Amós Oz, é Schmuel Asch, que vive com os pais, tem namorada, e faz um trabalho de pesquisa na universidade sobre as relações dos judeus com Jesus, além de frequentar um grupo de socialistas que se reúne em um bar, tendo em casa “posters” dos líderes da Revolução Cubana, e até uma estatuazinha da “Pietà” (Nossa Senhora sustentando o Cristo morto). Um jovem que parece contestar conceitos da sociedade israelense nos anos de 1959 e 1960, lembrando-se que tal sociedade se encontra em período do recém criado Estado de Israel e abriga muitas tendências contrastantes. 

Com a falência do pai, Schmuel não tem como continuar na universidade sem trabalhar, e sua situação se desestabiliza mais com a namorada largando-o para se casar com um ex-namorado. Num quadro de avisos da universidade encontra oferta de emprego de fazer companhia a um idoso com dificuldade de locomoção, apenas com a obrigação de ouvir-lhe falar e dar-lhe chá e outras pequenas tarefas similares, com direito a um quarto para dormir, refeições simples e pequeno salário. O idoso é o intelectual Guershom Wald que mora com a ex-nora, Atália, viúva com seus 45 anos. Esta trabalha fora e quase não se encontra, no início, com ele, a não ser para lhe dar instruções. Seu marido, o filho de Guershom, morreu em 1948, combatendo os palestinos. O pai dela, Shaltiel Abravanel, fora o dono da casa em que moram, também já morreu. Participou da formação do estado judaico, posicionando-se, entretanto, do lado contrário à corrente liderada por Ben Gurion, que foi vitoriosa. Para ele, os judeus e os árabes deveriam compartilhar de toda a região, considerando os direitos de ambos os lados, e até tendo amigos entre os árabes. Anarquicamente, achava que todo Estado é um dinossauro feroz (curiosamente Nietzsche tachou o Estado como o mais frio dos monstros frios). Achava que Ben Gurion, com seu Estado de Israel acendeu um fogo nos colegas que lhe eram mais cauteloso, e que as futuras gerações o amaldiçoariam. “O grande mal é que os oprimidos anseiam secretamente por se tornar os opressores de seus opressores. Os perseguidos sonham em ser perseguidores. Os escravos sonham em ser senhores.” Foi considerado traidor e obrigado a sair da organização sionista. De tudo isto o jovem se inteirou pelos relatos de Guershom e, aos poucos, da Atália, que, para isto, o narrador usa do recurso de lembrar de momentos históricos anteriores, e até das posições contrárias de Guershom e Abravanel, que passam para a formação de Schmuel como as discussões de Settembrini e Naphta para o jovem de “A montanha mágica”.

Os capítulos se alternam entre a narrativa na casa onde Schmuel trabalha e suas pesquisas sobre a relação dos judeus com Jesus. Aí o narrador descreve a posição de muitos escritores judeus, dos últimos 21 séculos, beirando o romance um ensaio, merecendo mesmo uma bibliografia, que interpenetra nas cogitações do jovem personagem.     

Tanto os personagens do romance, como, ao que parece, o próprio autor Amós, encaram Jesus com simpatia por sua doutrina conciliadora social. Porém, levantam questões fundamentais na relação dos judeus com Jesus, sobretudo pela posição da figura de Judas Iscariotes, que foi sempre visto pelos cristãos como o máximo representante dos judeus por sua traição, aquele que O entregou aos fariseus e romanos para que fosse crucificado. É como se todo povo judaico tivesse causado a Sua morte (Judas, com o trato com o dinheiro, é mais identificado pelos cristãos com o judaísmo que Jesus e apóstolos, quando todos eles, na verdade, eram igualmente judeus...). Em consequência, em todos os períodos das sociedades cristãs os judeus foram execrados, perseguidos, considerados deicidas. Chega-se a comentar nos diálogos do romance que na Idade Média, nas sociedades muçulmanas, convivia-se melhor com os judeus que nas sociedades cristãs de qualquer época, e que a atual disputa entre árabes e judeus poderá até melhorar algum dia, mas nunca o ódio dos cristãos aos assassinos de seu Deus.  

Dentre as “variantes” da narrativa pós-moderna, há um capítulo que interrompe a atualidade da história de Schmuel para descrever a crucificação, como se saída de um suposto “Evangelho Segundo Judas”. Este é descrito como o primeiro e último verdadeiro cristão. Sendo o único apóstolo com formação menos rude e base financeira (daí poder ter sido uma espécie de tesoureiro do grupo), mais rápido percebeu a magnitude dos milagres e da doutrina de Iêshua ben Iôseph (Jesus Filho de José), e concluiu que Ele era efetivamente o Messias esperado. Querendo contribuir com a divulgação disto, entregou-O aos sacerdotes, pensando que, se fosse condenado e crucificado, certamente Ele realizaria o maior milagre, descendo da cruz e todos teriam de acreditar em Sua divindade. Não haveria uma traição, assim, muito menos por 30 siclos de prata, o que equivalia à época ao preço de um escravo médio, o que para Judas não representaria grande quantia (o que seria o “beijo da traição” denunciando quem era o Mestre, quando Jesus andava livremente por Jerusalém, indo ao templo, expulsando de lá os mercadores, insultando os fariseus...?). Porém Jesus não se despregou da cruz, chegando a perguntar, dolorido, por que o Pai O abandonara, decepcionando Judas, que, desesperado, se enforca na figueira que Cristo havia secado (por que a amaldiçoou, se sabia que ela não dá figo antes do Yom Kippur? Por que, em vez disto, não fizera o milagre dela dar frutos naquela época, se sua vontade era a de comer figo? E esta dúvida aparece meio como símbolo do próprio desespero de Judas). 

Schmuel passa um inverno inteiro no emprego referido. Tudo que lá ouve de Guershom e de Atália, e mais suas leituras, vão fazendo com que suas convicções encontrem alternativas e dúvidas. Inclusive suas poucas saídas pela noite de Jerusalém com a madura e estranha Atália vai completando sua “formação”, mudando sua visão e trato com as mulheres de que errara com a namorada que o deixara. A velha Jerusalém onde tantos dramas religiosos se passaram serve de fundo ao romance, numa época em que parte dela se encontrava com a Jordânia, onde havia cercas e tiros podiam alcançar os transeuntes. O romance é uma composição de muitas realidades que acarretam a participação do leitor, trazendo-lhe reflexões úteis à própria “formação”. Creio, efetivamente, ser essa ainda a melhor justificativa para a resistência da Literatura num mundo onde o campo visual e as percepções sintéticas não muito intelectualizadas, infantointernetizadas ou em simplificações de um imediatismo jornalístico televisivo procuram lhe abafar a existência! 

 

Gerson Valle é escritor e poeta, membro titular da Academia Petropolitana de Letras e da Academia Brasileira de Poesia.