ANGELO ROMERO: VERSÕES E FRAGMENTOS - “Versões & Fragmentos”, Pimenta Malagueta Editora, Salvador, Ba, 2014 - O título do romance abrange duas de suas mais interessantes características. Sim, a narrativa passa por algumas versões de possíveis acontecimentos e deixa alguns fragmentos de um passado mais remoto, inclusive da obra de uma poetisa fictícia.

A colocação de versões diferentes para o passado de uma personagem, Berta Rosenthal, dentro da investigação realizada pelo personagem central do romance, Peter, lembra a forma dos três atos da peça de Nelson Rodrigues “Boca de Ouro” (em cada ato há uma versão diferente para a história do “Boca de Ouro”). E isto não é gratuito. Parece-me mesmo uma homenagem que o autor, Ângelo Romero, presta a um dramaturgo que admira. Mesmo porque a homenagem está expressa já no primeiro capítulo do romance, quando relata que “aconteceu uma cena comovente, digna de uma tragédia de Nelson Rodrigues”. E a cena em questão é o beijo na boca dado pelo amante de um atropelado moribundo, tal como ocorre na peça “Beijo no Asfalto” de Nelson Rodrigues. A situação, no entanto, não é a mesma. Na peça, o beijo é dado por um estranho, para atender ao último pedido do atropelado, e por causa deste beijo o estranho é perseguido pela imprensa como tendo cometido um ato homossexual publicamente, a ponto de sua própria esposa desconfiar de que ele era amante do falecido. Neste romance, o beijo é dado por um amante de fato e ambos não escondiam seu homossexualismo. Claro que não se trata de plágio, mas sim de uma transposição de situação, por citação indireta, bem de acordo com a composição resultante de diferentes referenciais do pós-modernismo de nosso tempo. 

Ainda na linha nelsonrodriguiana pode-se colocar a sequência de três planos diferentes (tal como ocorre em “Vestido de noiva”) logo nos primeiros capítulos e que irão seguir muito bem concatenados até o final do romance, indo aos poucos se encaixando como única narrativa. O primeiro plano é o do atropelamento seguido do beijo homossexual. O segundo é o do principal personagem, Peter, às voltas com sua admiração pela poesia de uma tal Berta Rosenthal de um velho livro sem referencial da editora, deixando-o curioso em saber quem é essa autora, e sua relação com a mulher que lhe deu o livro, Junia. Finalmente, o terceiro plano é do passado, da década de 1940, na Alemanha, com uma judia escondida de carrascos nazistas. 

Entretanto, não se pode dizer que a narrativa seja, apesar das homenagens expressas, nelsonrodriguiana no sentido da rapidez sintética com que o dramaturgo seguia em seus diálogos bastante coloquiais, onde reproduzia a fala corrente da pequena burguesia brasileira de seu tempo. Para começar, o tempo é outro. E nestes novos tempos o agregado de estilos e percepções diferenciadas conferem exatamente o que parece significar a sintomática aferição de informações múltiplas e desencontradas que nos chegam pelas diversas mídias. Insisto, portanto, em colocar, por tais características, esse romance como se enquadrando dentro de nosso pós-modernismo.

Bem pós-moderna é a metalinguagem com a reflexão sobre a “feitura” e dificuldades de divulgação de um romance colocada dentro do romance. O personagem Peter, como um alter-ego do autor, é, ele mesmo, romancista, e seu percurso como tal demonstra a dificuldade de publicar sua obra. Há reflexões sobre o meio de divulgação e sua realidade brasileira. O “romance” expressa-se, modernamente, sobre o “romance”, usando, assim, de uma bem sucedida metalinguagem

A forma tem lances policialescos, sem se poder classificá-la como de “romance policial”. Mas, muitas observações – e mesmo certas descrições minuciosas de lugares ou situações – se enquadram perfeitamente naquele gênero. Às vezes até gratuitamente, como também ocorre em tal gênero. Há uma linha de pesquisa que se assemelha à busca do autor de um crime, se bem que o fim da busca, no caso, é de uma poetisa e não de uma criminosa. Há, por outro lado, uma “visualização de mundo” por parte do personagem central, Peter, um pouco desfocada da modernidade. Ele encara a mente feminina, por exemplo, como uma grande incógnita, sendo homem e mulher duas concepções mentais estrangeiras, e não duas pessoas do mesmo gênero, e seus passos se dão, na relação amorosa, dentro de uma mentalidade machista de uns sessenta anos atrás. Os diálogos entre Peter e as mulheres seguem na mesma linha. Tudo isto confere ao romance um sabor anacrônico. Mas não se pode dizer que tal “anacronismo de mentalidade” constitua uma inverossimilhança, uma vez que em 1982 Peter deve ter uns quarenta anos, e, assim, sua formação foi, efetivamente, de uns setenta anos atrás. 

Angelo Romero sabe, de fato, como alinhavar o seu texto, experiente bastante, já com seis romances publicados, muita poesia e peças de teatro. Seu pai, Abelardo Romero, foi poeta elogiado por Manuel Bandeira, vendo-se por aí que sua formação em casa não descuidou de uma posição literária respeitável. Não se podendo esquecer, aliás, em se falando da literatura em sua família, de destacar um dos grandes críticos brasileiros de todos os tempos, Sylvio Romero. É claro que, mesmo na melhor das composições literárias, alguns pontos podem tornar-se conflituosos com um ou mais leitores. Sobretudo numa composição que segue “versões e fragmentos”. A advertência está no próprio título. E, no final das contas, ainda acredito que uma bem urdida ficção constitui num dos melhores métodos de se aferir a realidade que nos cerca. Siga ela seu caminho. E o leitor fará, por si, suas reflexões, ao sabor das posturas diferenciadas que a visão das versões desencontradas e dos fragmentos que nos chegam ao conhecimento nos permitem. E isto, por si, já é um grande trunfo do romance de Ângelo Romero. A qualidade ficcional que nos abre a porta à melhor compreensão de nós mesmos. Que o leitor desfrute, antes de suas reflexões, do encanto da narrativa, que é a faceta lúdica que torna toda arte, por si só, encantadora e necessária!

 

DANIEL BARROS - Eis um romancista que já por três vezes apresentou, nos últimos cinco anos, sua visão de mundo e de literatura. Seu primeiro romance apareceu em 1911, “O sorriso da cachorra”, e nele marca o gosto pela sua terra - Alagoas - com seus costumes e belezas naturais, descritos com detalhamentos como que rivalizando (ou complementando) o fio narrativo. Bem como seu apego à uma continuidade meio policialesca e uma grande paixão pelo erotismo, com os personagens em detalhados encontros amorosos. Paralelamente corre a descrição das atividades político-partidárias dos personagens, procurando apresentar, de certa forma, uma realidade atual brasileira. Tudo em narrativa simples, num realismo um tanto cru, prendendo a atenção do leitor médio, mesmo que passando por algumas ingenuidades na elaboração das cenas e personagens, e talvez até por isto mesmo, que parece ser inerente ao estilo e finalidade da sua escrita. Sua linha policialesca prossegue em um segundo romance, “Enterro sem defunto”, de 2013, onde um investigador desvenda e aprisiona uma gangue de traficantes. A atual realidade brasileira continua integrando a ambiência do romance, ao lado do gosto erótico tão presente - e até mesmo obrigatório - das últimas gerações. Se houvesse mais coerência em nosso mercado livreiro, sem dúvida os romances de Daniel Barros incluir-se-íam sempre nas listas dos “best-sellers”.  O terceiro romance, deste ano de 2015, “Mar de pedras”, lançado pela Thesaurus Editora, de Brasília, com a capa que segue o bom gosto de Tagore Alegria, mostra um desenvolvimento maior nas suas características, na apresentação do caráter de seu principal personagem, um fotógrafo bem sucedido que vive numa bela praia alagoana, onde se relaciona com algumas mulheres, aliás sempre tendo bom êxito com elas, que propiciam descrições de seu gosto erótico. O lado político se mostra na corrupção e maucaratismo do prefeito da cidade, maniqueisticamente (talvez por contingência do realismo da descrição desse meio) em oposição à honestidade de propósito do fotógrafo, suas mulheres, um pescador seu amigo, um padre, um amigo pobre que protege, etc. Passado mais entre as guloseimas nordestinas e beberagens dos personagens, o bom êxito das investidas sexuais, como que em realização virtual do autor (e de muitos leitores) e que, de forma machista, considera o homem traído como um corno vergonhoso, e a mulher traída com orgulho da macheza de seu homem (o que talvez também integre o realismo local...), de alguma forma, refletem o hedonismo dos romances de Jorge Amado, fechando a trama, no entanto, com um caráter de heróico desprendimento que confere certa dignidade ao romance, que, assim, pode estar inaugurando uma nova fase do autor. 

 

Gerson Valle é poeta e escritor, membro da Academia Petropolitana de Letras