Em 2015 o prêmio Nobel de Literatura de 1986, Wole Soyinka, visitou o Brasil mais uma vez e não só falou no Memorial da América Latina como também participou, em São Paulo, da primeira edição do Encontro Mundial da Invenção da Literatura (EMIL).

Mesmo com toda a sua importância, pois é considerado pela crítica o mais importante dramaturgo do continente africano, a imprensa não deu maior destaque a sua vinda, como podemos ver pela ausência de entrevistas e matérias nos jornais e revistas. Além disso, o mercado editorial também não se interessou em aproveitar a ocasião para publicar alguma nova tradução. Esse desinteresse se deve ao fato de que, apesar do Brasil ter passado por uma espécie de boom editorial de literatura africana de língua portuguesa, esse interesse arrefeceu e, hoje, poucos escritores africanos como Mia Couto ou Pepetela, por exemplo, continuam a ser publicados enquanto outros nunca despertaram o interesse das editoras. 


No caso específico de Soyinka a única obra publicada no Brasil foi uma tradução da peça “O leão e a jóia”, em 2012. Ela conta a disputa entre Lakunle, um professor primário, e o chefe da aldeia, Baroka, pelo amor de Sidi. Em 2010, a Universidade Federal da Bahia divulgou a realização de uma leitura dramática da peça “Ópera da malandragem”, mas essa tradução inédita não foi publicada em livro. Além disso, encontramos em Portugal a tradução do romance “Os intérpretes”. O leitor de língua portuguesa tem acesso a uma parte ínfima de sua produção e somente uma maior divulgação de sua obra pode contribuir para tentar minimizar essa situação. Seus ensaios, poemas, textos autobiográficos, contos e roteiros de cinema (e os respectivos filmes) ainda não estão disponíveis em português. Por ser praticamente desconhecido no Brasil apresentaremos alguns detalhes de sua biografia.


Soyinka nasceu na Nigéria, em Abeokuta, no dia 13 de junho de 1934. Estudou na Nigéria e na Inglaterra, onde no ano de 1957 se formou em literatura inglesa com menção honrosa, na University of Leeds. Sua primeira peça foi um pequeno texto para rádio, “Birthday treat de Keffi”, escrita quando estudou no University College, em Ibadan. Ela foi transmitida em julho de 1954 pelo Nigerian Broadcasting Service. Também foi nesse período que deu início a seu ativismo político com a fundação, juntamente com outros seis estudantes, da organização estudantil “Pyrates Confraternity”. Durante sua estadia na Inglaterra também veio a trabalhar no Royal Court Theater e esse envolvimento com o teatro o levou a continuar escrevendo seus próprios textos para teatro e rádio. Suas peças foram encenadas não só na Inglaterra, mas também na Nigéria, para onde retornou com o objetivo de estudar a dramaturgia africana.


Mais tarde também veio a escrever para a televisão. Em 6 de agosto de 1960 sua peça “My father’s Burden” foi transmitida pela Western Nigeria Television, sob a direção de Segun Olusola. Ele também se envolveu numa polêmica ao criticar o movimento Negritude de Leopold Senghor por seu caráter saudosista que, em sua opinião, o levava a ignorar os benefícios que a modernidade oferecia. Ele foi preso pela primeira vez durante a Guerra Civil, em 1967, tendo ficado em cárcere durante vinte e dois meses. Contudo, a prisão não o impediu de escrever e publicar. Foi professor na Obafemi Awolowo University, tendo renunciando posteriormente ao cargo, e professor visitante no Churchill College, na Cambridge University. Foi um dos fundadores do Drama Association of Nigeria, em 1963. Em 1969 participou da fundação do periódico literário “Black Orpheus”. Passou a viver num exílio voluntário a partir de 1971, tendo vivido em diferentes países.


Seu livro “The man died” foi proibido na Nigéria em 1984. Na década de 80 fundou o grupo teatral “Guerrilla Unit”. Em 1986 recebe o prêmio Nobel de Literatura. Em 1988 passou a ser professor de teatro e estudos africanos na Cornell University. Em 1994 ele foi obrigado a fugir da Nigéria por sua postura crítica, pela fronteira com o Benin, e foi para os Estados Unidos. A perseguição governamental que sofreu fez com que fosse classificado como traidor pelo governo do general Sani Abacha. Ele continua escrevendo e atuando politicamente tendo recebido outros prêmios literários. Por esses pequenos detalhes de sua vida podemos ver que a literatura, o teatro, o ativismo político e o magistério são elementos centrais de sua vida e obra e fazem do escritor um dos mais importantes intelectuais africanos da contemporaneidade. O que por si só deveria nos despertar o interesse pela obra do escritor e chamar a atenção para a literatura, e a cultura de modo geral, africana.  

 
Apesar das relações entre Brasil e o continente africano serem antigas, pela presença da escravidão em nosso país, isso não significa que tenhamos um grande conhecimento de sua história e cultura. Pelo contrário, uma visão distorcida, estereotipada, que apresenta uma África tal como foi representada no cinema, como nos antigos filmes do Tarzan, ainda impera entre nós. O continente se transformou, novos países surgiram e diferentes movimentos culturais surgiram visando a construção de uma identidade nacional sem que houvesse maior interesse de nossa parte em acompanhar e aprender com essas transformações. Nesse sentido, acredito que uma das formas mais eficazes de se combater esses clichês, e de se ter um primeiro contato com a diversidade e a riqueza cultural presente nas diferentes sociedades do continente africano, se dá por meio do contato com sua literatura.


Muitos não sabem, mas, além de uma rica literatura africana de caráter oral (parcialmente recolhida em livro) vamos encontrar também, entre outras, as de expressão portuguesa, crioula, inglesa, alemã, árabe e francesa. Dentre todas, a de mais fácil acesso para nós é a literatura em língua portuguesa. Isso ocorre pelo fato de que alguns autores foram publicados no Brasil e porque temos um acesso relativamente fácil a outros, que foram publicados em Portugal. Por outro lado, devido a falta de tradutores, podemos dizer que não temos acesso a produção em língua crioula. Alguns autores de língua inglesa foram traduzidos, com destaque para as ganhadoras do Nobel Nadine Gordimer e Nadine Gordimer e para o também ganhador do Nobel John Maxwell Coetzee. Por outro lado, a falta de interesse das editoras faz com que o número de obras africanas em língua francesa disponíveis no Brasil seja ínfimo. O número de autores de língua árabe também é mínimo, temos uns poucos autores egípcios traduzidos como o Nobel de Literatura Naguib Mahfouz.


Por tudo o que foi dito podemos ver que há muito a se aprender sobre o continente africano, sua história e cultura. O contato com a produção cultural dos diferentes países deve ser valorizado porque só temos a ganhar com isso em muitos sentidos. Não existe sociedade que não possa contribuir para o enriquecimento cultural de outra nação. Além disso, o contato com os países lusófonos pode contribuir para uma maior integração dos países de língua portuguesa. Nesse sentido, o contato com a literatura de outros países de língua portuguesa pode contribuir muito mais para uma tentativa de unificação do idioma do que a reforma ortográfica recém imposta pelo governo.

*professor de História em Itaperuna-RJ.