Alcides BussNesta resenha, Gerson Valle apresenta suas apreciações sobre as obras "viver (não) é tudo", de Alcides Buss, e "Theo e May", de Rita Moutinho.

1) viver (não) é tudo, de Alcides Buss, Caminho de Dentro Edições, Florianópolis, 2015 - A poesia de Alcides Buss caminha. É como se ela seguisse sempre em frente, inspirada no tempo que nos move. Isto, aliás, se torna explícito no livro em questão, dividido em quatro partes, digamos, de boa quantidade de poemas, como se fossem as quatro estações do ano mesmo que começando pelo mês de janeiro, e uma última parte com apenas um poema para retornar a novo janeiro, novo início de ano, retomada do ciclo. E o tempo se torna mais presente com o calendário do mês que vem na página de cada poema. O ciclo se perfaz com novo início. Isto é uma constante da observação do poeta. O “eterno retorno” nietszchiano? Os dois primeiros versos do livro já alerta: “O ano termina. / O ano começa”. E o próprio livro termina com: “Acolha-nos o tempo / como quem, à maneira da Terra, / faz germinar / o que seremos.” O tempo está, mesmo prevendo o retorno, em caminhos diversos que se tomam: “Os caminhos são tantos, são tantos, / mas se entrelaçam em dúvidas / no coração deserto”. E mesmo sabendo que “não há volta / sem voltarmos ao nada” este “nada” é anterior “a novo começo”. “Nada é para sempre.” // “Mas este abraço de humanidade / é tão crucial, / tão contundente, que nos fazemos crer, até, / que tudo é para sempre.” Como prova do sempre em conflito com o nada “Viver não é dormir. / Viver é acordar.” Os poemas se afirmam no caminho e no tempo: “Você vê que o tempo se esvai / e se aflige com isto. // Os cabelos ficaram brancos. / A pele perdeu o viço” .......... “O tempo nem mesmo existe. / O que existe é o corpo / e, sem você, não é ninguém.” Citar apenas fragmentos é muito pouco. Mas, eles nos posicionam na tônica dominante do livro. Ainda dentro do tema: “Anoiteci / pra esperar o novo dia.” E agrada-me repetir estes dois versos: “Anoiteci” é, em si, um verso miraculoso! Não necessita (nem pede) complemento. Quem se anoitece se basta como acontecimento. Intransitivamente. Mas, se existe um “anoitecimento” ele ocorre “pra esperar o novo dia”! Este tipo de constatação de aparência óbvia, e até redundante, aparece com frequência na poesia de Buss. Entretanto, a sua obviedade, ou mesmo redundância só são concretas no sentido prosaico de uma frase. Ao se tornar poesia elas se engrandecem, tomam em sua forma poética a verdade, a essência para a nossa sensibilidade existencial.


Não posso deixar de reproduzir um poema inteiro que não só exemplifica seu tom aparentemente prosaico preenchendo nossa sensibilidade poética por sua colocação em evidência do que nos toca, como pela atualidade do tema político:


“Eis uma coisa
que não podemos fazer sozinhos:
eleger governantes.

De antemão sabemos
que ninguém responderá plenamente
por nossos anseios
e sofridas esperanças.

Que bom seria se pudéssemos
levar a vida sem Governo,
cada um e todos respondendo
por seus atos
em exercício de liberdade!

Está provado, sim, agora este sonho
não é possível. Cabe-nos então
votar, eleger, aceitar.

Mas como dói engolir
tudo o que fazem e dizem
em nome desse poder
que lhes damos!”

Rita Moutinho2 - Theo & May, de Rita Moutinho, Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016 -  Este é o quarto livro de Rita Moutinho dedicado à forma soneto, e aqui a grande maioria ingleses, com pouquíssimos italianos, sendo a quase totalidade nas rimas toantes. Segundo a autora, ela teve por referência o livro de poemas “Toi et moi”, de Paul Géraldy, que foi um “best-seller” da poesia amorosa do século XX (teve tradução para o português de Guilherme de Almeida, “Eu e você”). Um “best-seller” em Poesia é coisa rara, sendo que até ficou famoso um jargão tirado do livro: “Si tu m’aimais, et si je t’aimais, comme je t’aimerais!” Mas, parece-me, a ligação dos dois livros está no fato da descrição dos amores de um homem e uma mulher. Rita constrói uma continuidade narrativa que vai desde a mocidade até a morte do casal, revezando os poemas como sendo da autoria uma vez do Theo outra vez da May. Chega a criar a referência aos anos de nascimento e morte dos dois: 1919-2001. Faz poesia sub-entendendo uma ficção, passando muito pelo gênero epistolar. Um amante escreve para o outro, e aí narra o que faz, se lê, o que lê, de forma às vezes coloquial, mas sempre pousando na gravidade do verso metrificado: “Trago devagarinho meu cigarro / enquanto leio versos portugueses...... “Sei que estás a ler Bertrand Russell / e que meditas sobre essa tragédia (a guerra)......... “Escrever, escrever é meditar / sobre as mortes aqui e no além-mar”.  O Théo descende de uma família condenada no século XVII a anualmente ir a Trento pelo assassinato de um “luthier”, tendo de sempre levar consigo um violino, “miolos de pão para sugar o sangue das águas e versos que chorem perdão, com secura dos sons”, explicação esta que vem no “postscriptum” em forma de prosa (carta), sem, no entanto, guardar a verossimilhança necessária para uma ficção, continuando, assim, a subjetividade poética ainda aí. E a poesia se faz na ficção apenas entrevista, mas guardada como um símbolo: “Querida, até a morte irei a Trento / com o mea culpa herdado e o desalento.” Às vezes o “namoro” do casal passa do lirismo ao corriqueiro, quase grosseiro: “Desliguei o abat-jour para observá-lo, / descansando do dia, em sono intenso, depois de caminharmos lado a lado / por variados recantos do terreno..... “com o abat-jour desligado eu me aproximo / e, Theo, bem sem-vergonha te bolino...” Este poema da May onde entra o abat-jour tem um correspondente do Théo, que vai reproduzido integralmente na seção de poemas deste jornal.


Ao final da vida, já com 79 anos,  May descreve a vida como: “O pêndulo do tempo está mais lento, / e a rotina se faz com mais vagar.” Terminando por fazer um balanço positivo do que passaram: “Theo, apesar do espinho que há no arbusto, / os deuses são conosco seres justos.”


Um livro de Poesia que guarda a originalidade da construção numa temática, ao contrário da maioria dos livros do gênero que apresentam poemas esparsos, como já eu tinha observado na resenha que fiz em Poiésis de agosto de 2013 do seu outro livro “Psicolirismo da terapia cotidiana”, sempre merecendo uma leitura atenta e degustativa para quem aprecia boa Poesia.

Gerson Valle é poeta e escritor, membro do conselho editorial do Jornal Poiésis e membro titular da Academia Petropolitana de Letras.