Alguns shakespereanos se intrigam pelo fato de treze da trinta e cinco peças escritas por William Shakespeare (1564-1616) serem localizadas na Itália. Isto pode não ter significado algum, mas em se tratando de um dos mais louvados escritores de todos os tempos, de que sempre foi envolvido com certo “mistério” em torno de sua vida (o que parece ser um “gosto” do país das neblinas, dos castelos ditos mal-assombrados, dos “sherlocks” para desvendar mistérios...), em que até sua existência já foi questionada, ou se era o ator que existiu com este nome o real escritor das peças por ele representadas (uma vez que os atores de então não possuiriam, em geral, a cultura histórica e filosófica que ele apresenta), pode parecer um indício de algum fato a ser pesquisado...

O prólogo de Romeu e Julieta, um soneto, refere-se ao local da ação qualificando-o como a “fair” (“bela”) Verona... Curioso porque não consta que Shakespeare tenha saído da Inglaterra. Por conseguinte, o adjetivo é colocado na crença de suas leituras. Ultimamente, entretanto, e mais um mistério se adiciona à vida de Shakespeare, um pesquisador italiano, Martino Iuvara escreveu um curioso livro intitulado: “Shakespeare era italiano”, onde tenta provar que ele nasceu na Itália, seguiu um seminário franciscano, onde aprendeu latim, grego, História, etc., e não teria se tornado padre por se ter apaixonado por uma mulher que faleceu antes de se casar com ele. Desgostoso, viajou por alguns países, acabando por fixar-se na Inglaterra onde seguiu as carreiras de poeta, ator e dramaturgo que se conhecem... Há também a hipótese levantada por outro estudioso de que entre 1585 e 1592, anos de que pouco se sabe dele, teria vivido num convento na Itália. Ligada à essa suspeita, um intelectual canadense afirma que nosso bardo era profundamente católico, tendo encontrado registros em antigos conventos de seu nome disfarçado em latim, o que parece verossímil com suas peças onde expressões católicas ocorrem, sob, talvez, a desculpa destas peças tratarem de tempos anteriores à criação da Igreja Anglicana por Henrique VIII. Como a rainha Elizabeth I, que perseguia os papistas, poderia admirá-lo como se diz? Mas, talvez ele nunca revelasse sua religião, e esta fosse mais uma justificativa de sua ambígua posição misteriosa ante a vida. Indubitavelmente, o Frei Lourenço de Romeu e Julieta é um personagem simpático, ao contrário da ironia com que se tratavam os padres no teatro de outros autores ingleses de então.


Curiosamente, parece birra de um católico latino o tratamento dado ao judeu Shylock em “O Mercador de Veneza”, que ao emprestar dinheiro, assina com o devedor um contrato que se este não cumprir o pagamento em dinheiro terá de fazê-lo com uma libra da carne de seu próprio corpo, e no tribunal não aceita o pedido de misericórdia, só retrocedendo ante a prova de que o contrato previa carne e não sangue, portanto não podendo cortar a carne sem sangrar. Como em 1290 o rei Eduardo I expulsou os judeus da Inglaterra, e se Shakespeare nunca saiu de lá, não deve ter conhecido nenhum judeu por toda a vida! De forma, que o aparente anti-semitismo da peça é apenas o uso de um símbolo tradicional para representar a mesquinhez e egoísmo da usura e do dinheiro como valores acima do sentimento de fraternidade humana. E há a referência na peça à Veneza como o lugar “aonde o homem brincou de ser Deus. Construiu a mais bela cidade feita pela mão do homem”. Pura referência livresca ou ele a conheceu?


Também na Itália, em Pádua, se passa a comédia “A megera domada”. A jovem Catarina é rebelde, e não aceita se casar porque não quer se curvar ao desejo de ninguém, como as mulheres deviam fazer naquele tempo diante dos homens. Petrucchio, nome estranho bem italiano, casa-se com ela forçada pelo pai. Para se vingar, ela o trata a patadas. Ele responde, desaparecendo com os vestidos de sua vaidade e impedindo, de forma sempre engraçada, dela comer. Com tudo que ela sofre, acaba por se curvar e no final da peça, diante da família dela Petruccchio pede: “Kiss me, Kate”, e ela o beija obedientemente. Aqui também pode-se criticar, achando as feministas a história machista. Mas, o que sobressai é a necessidade do entendimento na relação amorosa, mesmo à custa de algumas situações politicamente incorretas, mas reveladoras dos costumes e que ensejam momentos engraçados.  O amor é tema constante na obra de Shakespeare.
Antes de “Romeu e Julieta” escrevera a comédia “Dois cavalheiros de Verona”, onde aparecem algumas definições amorosas e o uso de uma corda para subir ao quarto, tal como na noite de amor do famoso casal. Os elementos cidade de Verona, amor, corda, por conseguinte, se repetem. É como se Shakespeare se preparasse para o seu primeiro grande sucesso, narrando os amores de Romeu e Julieta. Curiosamente eu já ouvi de um televisivo professor paulista que “Romeu e Julieta” é uma peça mais política que amorosa, sendo escrita para provar que a impetuosidade da juventude deve ser reprimida pela autoridade dos mais velhos, defendendo o absurdo dos pais escolherem os casamentos dos filhos. Esta é a ideia que perpassa a introdução do poema de Brooke, de onde Shakespeare tirou os dados, mas se opondo àquela baboseira reacionária, com seu hino ao amor e à juventude. Nesse posicionamento do citado professor, a que me oponho, o personagem principal seria o Príncipe que aparece somente 3 vezes na peça para mostrar bom senso administrativo. É um ponto de vista, parece-me, de quem considera a burocracia mais importante que a emoção. E para quem não tem afinidade literária ou teatral as figuras do frei Lourenço, da Ama e de tantas personalidades, que parecem ter vida, são menos significativas que o papel policialesco governamental. Tal visão crítica insiste em que Romeu, passando do amor de Rosalina tão rapidamente ao de Julieta, só tendo os dois uma noite juntos e ainda a história se desenvolvendo em apenas 5 dias, a existência do amor não está garantida. Shakespeare, muito mais modernamente, garante o contrário, que o amor independe do número de noites em que se dorme juntos, nem da continuidade da afeição, pois um jovem pode ter a percepção intuitiva do amor num rompante, como na expressão francesa “coup de foudre” (“golpe de raio”, literalmente), admitindo-se aí uma variante de intensidades, em Romeu a sensibilidade lhe apontando para Julieta como a mais forte. E é de se notar a subjetividade de tais preferências, pois a Ama observa que o conde Páris, além de bom partido era um homem bonito. Isto não impressionou Julieta. O amor não é materialmente explicável, assim, na peça. As carranquices reacionárias de quem despreza o que seja amor, arte, literatura não atingem a realidade de nosso psiquismo, que sensivelmente se refletem nas posturas poético-musicais.


Sigmund Freud descreve, em todo ser humano, a punção de Eros e a punção de Tânatos. Em outras palavras, o amor em sua manifestação lírica construtiva, conduzida pelo desejo sexual, e a morte, com sua violência destrutiva, que também nos acompanha inexoravelmente. A peça aludida coloca essas punções em evidência ao tratar de suas manifestações espontâneas na juventude. Não apresenta uma reflexão madura sobre o amor da convivência por uma vida nem a visão amorosa da conjugação da Humanidade fraterna espiritual e ideal. Mas, representa em cena, de forma crua na cara do espectador, a manifestação juvenil dessas punções irrefletidas, como se dá quando são sentidas no momento em que aparecem, como um raio inevitável, forte, imponente. Os jovens são levados pelas correntes das paixões - dos arrebatamentos amorosos às brigas de rua raivosas -, construindo a poesia existencial contrária à prosa das meditações mais compreensivas e maduras. Corajosamente desafiam o destino de peito aberto, expondo-se às adversidades desprotegidos, com a ingenuidade dos puros.


Tais impetuosidades juvenis, estranhamente, nos dão uma ideia muito mais aproximada das paixões latinas, de que os italianos são os mais representativos, do que a contenção normalmente lembrada nas atitudes anglo-saxônicas.  E sem apoiar nenhuma hipótese esdrúxula quanto a do estudioso italiano que reivindica a nacionalidade de Shakespeare a seu país (quem que, intelectualmente bem informado, não gostaria de ter como compatriota um dos marcos fundamentais da Literatura universal?), mas pondo um pouquinho de fogo mais na fogueira, quando o grosso da Humanidade esquece da relevância de seus herois escritores, lembremos ainda de “Othello”. O primeiro ato se passa em Veneza e os outros 4 na Ilha de Chipre. Por acaso é anglo-saxão o ciúme desesperado do apaixonado mouro? E o ódio apaixonado também, do perverso Iago? Curiosamente, Giuseppe Verdi (que teve 3 óperas inspirado em Shakespeare, “Macbeth”, “Otello” e “Falstaff”, e que se dedicava com fervor à leitura de sua obra, tendo se frustrado por não escrever um “Rei Lear”, e que muita gente considera seu teatro musical como o que melhor reflete as intenções e comportamentos de personagens do bardo inglês) teve o libreto de seu Otello de um italiano grande conhecedor de Shakespeare, Arrigo Boito, que o fez transpor para música as situações da tragédia original com uma expressividade tão ou mais significativa que o original (entre nós, inclusive, Otto Maria Carpeaux escreveu que o Iago delineado por Boito/Verdi é mais aperfeiçoado dramaticamente que o de Shakespeare). Para mim - e esta, sem dúvida, é uma curiosidade - por mais que eu leia e goste da peça de Shakespeare, “Othello” (ou “Otello”) sempre me parece com a melhor representação do que há de mais bem acabado de uma ÓPERA ITALINA!!! 

Gerson Valle é membro da Academia Petropolitana de Letras.