Gerson Valle

Viver a contemporaneidade literária, mesmo reconhecendo que esta não esteja à altura de grandes nomes do passado, é sempre alentador por dar a sensação da pujança da Arte das Letras. No comum do romance de hoje em dia, entretanto, há uma repetitiva onda de narrativas policialescas, onde o leitor é envolvido com o desvendamento de mistérios, crimes, importando menos as inverossimilhanças e concentrações descritivas mais refinadas e/ou reflexivas, como foram sempre representativas na melhor Literatura.

Outra diferente alternativa da contemporaneidade é o experimentalismo, desprezando mesmo o significado humanístico que a Literatura representa. Um escritor que somasse as inventividades primárias e bastante “déjà-vu” à audácia da pós-modernidade de mistura de gêneros, onde a ficção se misturasse ao ensaio científico, artístico ou literário, e o Realismo abusasse até das referências históricas em meio a delírios imaginativos, como acontecia nos romances de Umberto Eco, a sensação de ainda se viver uma época de significado literário algo renovadora e bem desenvolvida podia afastar o desprezo pela vulgaridade contemporânea. Poder-se-ía mesmo pensar que está na ficção a verdadeira aproximação de um entendimento intelectual do Universo, científica e humanisticamente. Algumas vezes, achei tão interessante a Literatura de Eco que escrevi-lhe algumas resenhas. E ficava ansioso que fosse publicado um novo livro seu. Infelizmente, Umberto Eco morreu no ano passado, deixando vaga a cadeira de professor de Semiologia (que ajudou a fundar) na Universidade de Bologna, e ficando-me a certeza que não lerei mais nenhum de seus livros inteligentes, semi-ensaísticos, semifictícios.  

O escritor Laurent Binet foi laureado com o Prêmio Goncourt para romance de estreia em 2010, o que o torna um escritor proeminente no cenário francês. Em “Quem matou Roland Barthes?” (no original “La Septième Fonction du Langage”, tradução para o português de Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras, 2016) este escritor retoma o caminho de Umberto Eco ao tratar de pessoas conhecidas como se fossem personagens de ficção, compondo uma narrativa encima de discussões filosóficas e científicas, e ainda envereda por hipóteses tanto teóricas quanto ficcionais, como se estivéssemos de fato ante uma nova escola literária que fora fundada por Eco. 

O fato parte da morte do semiólogo francês, professor da Sorbonne, Roland Barthes, atropelado por uma caminhoneta em 1980, quando saía de um almoço com o político, que chegou a ser presidente da França por 16 anos, François Miterrand. Logo surge, no romance, na mistura de filosofia, linguística, política, a hipótese dele ter sido assassinado. Mas, qual o interesse em se matar um estudioso voltado para um intelectualismo em nada popular como Barthes? E aí a imaginação encontra-se em cheio com planos da ficção científica. O que é científico é que o russo Roman Jakobson classificou 6 funções da linguagem: referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética. O que é ficção é que Roland Barthes teria o segredo de uma sétima função da linguagem, que daria a seu conhecedor o poder de convencer qualquer pessoa do que bem entendesse, fazendo com que o texto se tornasse numa verdadeira fórmula mágica, um “abre-te Sésamo” que obrigaria o interlocutor a seguir sua vontade. Diante de uma arma tão poderosa cria-se a suspeita de todos os filósofos e linguistas daquela época, pois só estes poderiam suspeitar de tal abrangência de uma simples função da linguagem, lembrando-se que na própria teoria semiológica de Barthes “tudo é texto”. Assim, por dedução levada ao cúmulo do absurdo, o “texto” se responsabilizaria na vida não só pela realidade sensível, como pela abstração mágica e imponderável... A polícia mesma, envolvida por um comissário que desconhece semiologia, mas que leva sempre, a seu lado, um estudioso da matéria, na eterna dupla similar a Sherlock Holmes e doutor Watson (e aí na mistura ao gosto do leitor “multimídia” de policial e/ou “quadrinhos” e informações/formações ecléticas) deduz que Roland Barthes ao ser morto levava consigo, em seu bolso, o texto revelador da poderosa função da linguagem. Em consequência, tornam-se personagens do romance, por serem os primeiros suspeitos da morte de Barthes para lhe roubar tal “segredo”, entre outros, Derrida, Foucault, Lacan, Althuser, Deleuze, Eco, e tantos outros eminentes intelectuais da época.

O romance também repete outra das formas audaciosas de Umberto Eco de misturar a realidade histórica oficialmente reconhecida por documentos e pesquisas com “invenções” até de superstições, tradições ou “sociedades secretas” com “iniciações”, ocultismos, etc., formando um agregado de hipóteses na interpretação da História da Humanidade, e, por consequência, na demonstração das verdades que tentamos alcançar pela reflexão trazida na narrativa. A sociedade criada no romance em causa reúne-se às escondidas, somente seus participantes conhecendo local e hora, e tem por fim debates de um intelectualismo extremo, onde dois contendores, como se fossem lutadores numa arena, se interrogam sobre qualquer assunto. A forma como as questões são construídas e o nível dado pelas respostas fazem com que um júri decida quem ganha a prova. O perdedor, cruelmente, é obrigado a colocar a mão aberta para lhe ser decepado um dedo!!! Curiosamente, o cineasta italiano Michelangelo Antonioni, descrito como pretensioso, achando que nunca poderia desconhecer o que lhe fosse perguntado, perde um dedo nesta prova. Tal julgamento de um autor de filmes tão significativos de nosso tempo (tal como “O grito”, “A noite”, “O eclipse”, e tantas outras obras-primas), pode ter, para muitos, uma conotação meio anedótica, se bem que pareça-me, por uma grosseria atroz e sua repetição por outras figuras representativas da modernidade, acabar por mostrar que o autor do romance demonstra um profundo desprezo pelos melhores artistas e pensadores da sociedade. Ou que se afine com qualquer “mass media”, não só policialesca e/ou de quadrinhos, como nos grosseiros programas de televisão e da narrativa exclusiva de violência e sexo gratuitos do cinema de hoje em dia. Só para o público acostumar-se à continuidade pérfida, pedindo-a sempre mais presente, desumanizando, boçalizando, e todos se tornando de um excessivo materialismo, a ponto de não saberem mais o que seja sutileza, delicadeza, sentimentos... e assim o autor tenha seu público certo para suas aberrações simplistas, idiotas, sem compromissos... 

A sociedade secreta chama-se “Club Logos”, e seus membros seguem uma hierarquia, cujo mais alto posto é do “Grande Protágoras”. As referidas contendas têm em vista o aumento do posto de cada membro, ou a sua diminuição e perda física. O escritor Phillipe Sollers desafia o Grande Protágoras. Portanto, sua perda não é a decepação de um dedo. É a estupidez impensável entre pessoas civilizadas da decepação do órgão sexual pela audácia de ter querido rivalizar com o manda chuvas da instituição!!! Nem mesmo o nazismo sonharia com uma penalidade tão bárbara!

E quem é o Grande Protágoras, responsável pelo sacrifício do escritor francês de tão bem sucedidas obras? Nada mais nada menos que Umberto Eco!!! À esta altura, o leitor que sabe que Eco foi um humanista antes de tudo, perde qualquer credibilidade pela narrativa, que pode, inconsequentemente, inventar qualquer história e tomar qualquer posição. A quem isto serve? A quem isto diverte? A que fim se destina tal literatura? Acho que ao chamado “entretenimento” da “mass media”, alienante e alienada, entregue ao verme da mentalidade capitalista do mercado.

Enfim, não há a “escola” literária formada pela perspectiva renovadora e inteligente de Umberto Eco. Para segui-lo talvez se necessitasse ter sua imensa cultura, formação com especialidade, logo no início dos estudos mais aprofundados, no conhecimento amplo de um período da História - a Idade Média com a Igreja Católica, seus teólogos e as línguas derivadas do latim. Como foi longe o rebuscar do conhecimento de Umberto Eco, resultando um humanismo, que poderia até criar ficções em que criticava o comportamento humano, mas nunca a ponto de derrubar toda uma intelectualidade representativa da sociedade moderna. Isto faz quem é descrente de tudo, por, naturalmente, desconfiar de si mesmo! Uma literatura para o lixo!!! Uma pena!  

Aliás, diga-se de passagem, o argumento de base que seria o assassinato de Roland Barthes para se encontrar a sétima função da linguagem, que ele teria escondido, e que daria o poder do convencimento a quem a soubesse usar, é de uma tolice tão absoluta que eu fico me perguntando como se pode, fora a vontade de desancar a pretensão dos maus literatos que me moveu, alguém aturar sua leitura até o fim? Espero não me obrigar mais a este tipo de sacrifício! E que meus leitores me ajudem na divulgação do significado da Literatura como humanismo em prol do conhecimento e da reflexão e não de baboseiras a desperdiçar nosso precioso tempo. Obrigado.

 

Gerson Valle é presidente da Academia Petropolitana de Letras