Foto: Elza FiuzaRecente estudo realizado por pesquisadores das Universidades de Columbia, Michigan e Colorado, nos EUA, demonstrou como a rejeição amorosa tem a mesma correspondência que as dores físicas no ser humano. Baseado no mapeamento das atividades cerebrais, eles verificaram que o sentimento de perda e separação tem o mesmo impacto que o de uma queda ou um ferimento.

Ou seja, a dor emocional ativa a mesma área do cérebro responsável por localizar sinais de uma dor física.
A comprovação da neurociência vem se somar ao que se observa em consultórios de psicologia e psicanálise, quando as perdas dos pacientes se configuram em dores emocionais tão fortes quanto as físicas. Em alguns casos, a dor da perda se torna tão insuportável que o indivíduo chega a se machucar fisicamente para que uma dor suprima a outra.


A perda amorosa é uma das facetas deste sentimento tão forte que afeta as pessoas em sua relação objetal com o mundo. O distanciamento do outro chega a se aproximar do sentimento de luto, que, segundo Sigmund Freud , “é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”.


Por mais religiosos que sejamos, por mais estudos que façamos sobre o sentido da vida, ou mais conhecimento científico que tenhamos sobre os mecanismos de funcionamento dos sistemas corporais, a morte ainda se configura como uma grande ameaça, um todo incompreensível que nos assalta a consciência e nos leva à abstração provocada pelo luto. É a perda mais evidente.


O luto é natural. E como toda perda, no sentido psicanalítico ou neurocientífico, causa dor. Vivenciado em sua naturalidade, ele segue cinco etapas, bem identificáveis: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. Pode ser que a pessoa em luto passe por todas elas, ou pelo menos duas. Às vezes, permanece por longo tempo na negação e entra em estado depressivo. Há o risco de que a tristeza profunda se torne depressão.


Mas há saídas e caminhos. Esta é a proposta de Petra Franke em seu livro “Toda noite escura tem um final de luz: orientação e conforto em tempos de luto” (Petrópolis, Vozes, 2016, tradução de Carla Koch). Só o título da obra já nos dá um alento para prosseguirmos em busca da esperança. O texto se desenvolve no sentido de levar o leitor a encontrar forças para, dia após dia, seguir o caminho do luto até o ponto de se livrar da dor.


De leitura fácil e até didática em alguns momentos, o livro traça a rota do otimismo e da esperança. Afirma a autora: “Mesmo quando nos momentos mais sombrios tudo ainda parece tão difícil e sem sentido, haverá futuro, e vale a pena lutar por isso”. Rico em citações reflexivas, “Toda noite escura..” traz ainda exercícios e sugestões de práticas para aliviar o sofrimento. É mais que uma obra de autoajuda. Não se destina apenas a quem está vivenciando o luto, mas a qualquer pessoa que busque compreensão sobre este mistério que ainda assombra a alma humana e que Manuel Bandeira tão bem traduziu em versos:


“Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.”

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1986.
FRANKE, Petra. Toda noite escura tem um final de luz: orientações e conforto em tempos de luto. Petrópolis, Vozes, 2016.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro, IMAGO, 1996.
 
*Camilo Mota é editor do Jornal Poiésis, psicanalista e terapeuta holístico (www.camilomota.com.br), faz atendimento em Araruama e Saquarema.