É um mundo diferente o mundo do facebook. Um mundo onde todas as pessoas são niveladas por cima, ou seja, todos os que postam suas próprias fotos recebem 101% de comentários como “Linda!”, “Lindo!”, “Arrasou!”, “Fechou o tempo!” e por aí vai.

Um mundo onde as palavras são quase sempre encurtadas e ninguém nota a falta das letras: “Vc, pq, q, qto, qdo, vlw, enqto, brô, mlk, vamu”.


Um mundo em que as pessoas riem por tribos de sons: “kkkkkk”, “rsrsrs”, “hahahaha”, “hehehe”.


Um mundo onde qualquer coisa é literatura e arte, qualquer coisa é daquela antiga categoria do “falou e disse” e do ainda mais antigo “é isso aí”.


Um mundo em que a sinceridade nos juízos de valor se expressam mais pelo silêncio, pela ausência do comentário.
Um mundo em que todas as famílias são felizes, lindas, unidas, sensacionais.


Um mundo onde as comidas caseiras mais simples (como um miojo ou um ovo frito) assumem grau de “haute cuisine”, coisa digna de “master chef”.


Um mundo de pessoas obsessivas: uns que só postam fotos de flores e jardins, outros de netos e netas, filhos e filhas, outros que não resistem 60 minutos sem postar uma novena, uma reza forte, uma santa, um trecho sagrado, outros que só postam joias com tema religioso.


Um mundo em que muitos acreditam ser elegante e de bom tom postar foto com uma taça de champagne na mão, quando no fundo nada mais é que consumada expressão de provincianismo, cafonice, brejeirice.


Um mundo em que pessoas de 30, 40 anos ou mais decidem colocar na vitrine virtual fotos sensuais e de gosto pra lá de duvidoso, como se estivessem ainda na casa dos 18 ou 20 anos de idade.


Um mundo em que o efeito manada é impressionante: se é o dia da criança todas as fotos passam a ser do tempo em que eram crianças, se é dia das mães, todas as fotos trazem um “eu te amo mamãe” e procuram sempre dançar conforme a música do fácil consumismo.


E outros que adoram piadas de gosto duvidoso, daquelas bem sujas com triplos sentidos.


Tem os que são fissurados em livros e só falam de autores e filósofos quando não de um filme tão inesquecível que será esquecido apenas daqui há dois dias.


Persistentes são os que só emitem opiniões de política, tema que em geral causa tantas brigas, desuniões e conflitos, muitas vezes insuperáveis nas relações humanas.


Estão sempre presentes os que não fazem outra coisa sem curtir logo de cara o que lhe passa na frente dos olhos, e isso, sem ao menos ler o que está recebendo o seu sinal de curtir.


Os amantes da música e dos vídeos parecem habitar um assanhado formigueiro: a cada instante divulgam uma música, uma raridade do youtube.


O mundo do facebook é o mundo em que projetamos a vida ideal que gostaríamos de ter: nenhuma dívida vencida nem por vencer, nenhum problema de saúde na família e nenhuma sombra atroz de desemprego a pairar no horizonte.


O mundo para ser muitíssimo mais feliz bastaria apenas que uns 5% do mundo do facebook se refletisse na vida real.

*Jornalista, membro da Comunidade Internacional Bahá’í, reside em Brasília-DF.