Por Camilo Mota*

A visibilidade cada vez maior de extremismos religiosos no Brasil e no mundo convida a uma reflexão mais aprofundada sobre como está se configurando a relação dos homens com Deus na contemporaneidade nos campos da cultura e da sociedade. Em “O mal estar na civilização”, Sigmund Freud demonstrava, no início do século XX, como a sociedade cria suas estruturas de poder em torno de um imaginário que teria como princípio a proteção e a preservação da vida, mas que gera dentro de si as forças opostas a essa mesma representação. Ao analisar as formações gregárias no exército e na igreja, o psicanalista austríaco descreveu com bastante clareza como o homem gera dentro de seus grupos sociais o ódio ao outro, à diferença, ao estranho. Tudo aquilo que não faz parte do meu grupo passa a ser o meu inimigo. A sociedade que criamos para nos sentirmos bem e em paz é a mesma responsável pelo mal estar que sentimos.

A construção social do imaginário de Deus pelos grupos fundamentalistas confirma a teoria freudiana e se abre para o conceito de pós-verdade que está presente não só nas redes sociais, mas também no dia a dia de nossas cidades. Os atos terroristas promovidos pelo Estado Islâmico contra as nações ocidentais, os ataques de cristãos a terreiros de umbanda e candomblé, e o avanço das forças conservadoras e puritanas no Brasil com as recentes tentativas de censura a manifestações artísticas em dois importantes museus do país, são sinais claros de que há uma leitura equivocada do que se concebe por Deus nos campos da filosofia, da psicologia e da teologia. Não se vê uma preocupação maior em refletir sobre a totalidade dos acontecimentos, suas relações intrínsecas e sua contextualização a partir de uma análise distanciada e livre de preconceitos ou de anacronismos. Vale o imediatismo de uma emoção vacilante, que leva ao que vem sendo chamado de pós-verdade: “eu acredito, logo estou certo”.

Ao tomar Deus como escudo e bandeira de discursos radicalizantes, os homens e as instituições promovem justamente o oposto daquilo a que a religião deveria servir: religar o homem à sua unidade com a Criação. Dessa forma, toma-se, literalmente, o nome de Deus em vão. Usurpa-se a autoridade do divino, que passa a servir aos interesses de um grupo social, político ou espiritual. Daí que uma determinada corrente religiosa passa a querer ter supremacia sobre as outras. Mata-se em nome de Deus e se justifica isso como um decreto divino.  Destrói-se o outro porque o Deus dele é diferente do meu.

Na contramão dessa tendência, ainda sobressaem na sociedade de nossos dias discursos que sustentam a paz advinda da relação de unidade e amor que se pretende alcançar quando se remete ao divino que está presente no homem e no universo.  Tal perspectiva está na linha de frente de pensadores e lideranças religiosas de diversas denominações, sejam elas cristãs, budistas, afros, bahá’ís, hinduístas, entre outras.

Seguindo a tradição da teologia cristã, o monge beneditino alemão Anselm Grün e o teólogo brasileiro Leonardo Boff se somam a essas vozes que pretendem trazer mais luz às consciências a partir de um olhar amoroso e não belicoso, redescobrindo o sentido da força crística que deve ser despertada no coração do homem. Em “O Divino em Nós” (Petrópolis, Vozes, 2017, tradução de Markus A. Hediger, 168p.), os dois autores se detêm a aprofundar o sentido da busca e da realização do divino tanto no homem quanto no universo. Grün aborda a relação do divino com o humano, enquanto Boff avança até as fronteiras do universo, trazendo uma dimensão cósmica para sua concepção teológica.  

O monge alemão, por sua vez, é de uma clareza surpreendente e fala de coisas profundas como se estivesse nos falando mansamente como um professor dedicado a um aluno interessado em vivenciar os mistérios da vida. E é disso que se extrai o que há de mais belo em seu texto: a possibilidade de realmente praticarmos as palavras que ali são ditas, e não simplesmente repetir um discurso pronto. Até porque, segundo ele, só é possível alcançar alguma compreensão de Deus se o homem se voltar para si mesmo e se conhecer. Em suas palavras: “Não existe conhecimento de Deus sem autoconhecimento; não existe encontro com Deus sem que eu encontre a mim mesmo, e isso ocorre quando estou atento aos meus sentimentos e pensamentos” (p. 25).

E nesse caminho de autoconhecimento, o homem pode descobrir, no silêncio que o habita, no íntimo de sua alma, no recanto onde não permite que os ruídos do mundo o incomodem, a beleza do divino no homem, nas pessoas, no mundo. Tal concepção alarga os horizontes de possibilidades até mesmo para a cura espiritual e para o olhar de paz que precisamos desenvolver para vivermos bem, em harmonia com as pessoas e com a natureza. 

Alerta-nos Grün como um convite a nos analisarmos e vermos realmente o que pretendemos quando afirmamos algo que sentimos como sendo de origem divina: “Antes de moralizar e dizer que precisamos amar uns aos outros, deveríamos primeiro mergulhar no espaço interior do silêncio, onde jorra a fonte do amor em nós. É um espaço cheio de amor, e esse amor no fundo de nossa alma nos conecta com o amor que impregna toda a criação” (p. 77). Ao ler e sentir essas palavras fica realmente complicado de entender como alguém pode falar em nome de Deus e insuflar ódio e separação no coração dos homens.

Na segunda parte do livro, Leonardo Boff mergulha fundo na sua concepção do Cosmos, trazendo-nos reflexões sobre a totalidade da vida. Ele não se detém apenas em concepções filosóficas e teológicas, mas promove um diálogo com a ciência. Aqui um outro grande ponto positivo do livro, levantando a questão que emerge na sociedade contemporânea e que precisa de fundamentações cada vez mais viáveis: como conciliar religião e ciência? A energia cósmica que tudo permeia seria uma metáfora de Deus? 

E num momento de êxtase, o teólogo avança para além do homem e o situa na sua relação com o todo: “[Deus] Criou-nos para que pudéssemos captar a majestade das galáxias e do céu estrelado e nos enchêssemos de temor reverencial, de profundo respeito e de reverência” (p. 118).

“O Divino em Nós” é uma obra essencial para quem procura refletir e meditar sobre os princípios cristãos (e universais, pois que a obra se abre ao diálogo inter-religioso e científico) e sobre a importância do encontro do sagrado no homem. Em tempos de radicalismos e de desesperança, Anselm Grün e Leonardo Boff dão sua contribuição para a construção de um mundo mais sereno, mais firme no propósito de valorizar a beleza da criação, valorizando o amor (ágape e eros) que é a verdadeira fortaleza da vida.

 

*Camilo Mota é licenciado em História, Psicanalista Transpessoal, escritor e membro da Academia Araruamense de Letras. Site oficial: www.camilomota.com.br